Quarta-feira, Janeiro 23, 2019
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Mia Couto prepara novo livro com foco na sua infância na Beira

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O escritor Mia Couto disse hoje à agência Lusa que o seu novo livro tem como foco a infância na Beira, em Moçambique, admitindo que é uma mudança na sua escrita, como que a contrariar que só se nasce uma vez.

“Visitei a minha cidade, no princípio deste ano, de uma maneira que reencontrei os lugares de infância e tive tempo, que é uma coisa que deixamos de ter num certo período da vida. Não só revisitei, fui de maneira a ser ocupado por esse espaço, por essas vozes e isso foi muito importante para mim, percebi que estava tudo vivo, esse passado não tinha passado”, justificou Mia Couto.

Na calha está o novo livro do escritor moçambicano que tem como foco a sua infância e, neste sentido, admitiu que quando visitou a Beira, uma vez que vive em Maputo, ia com vontade de se “deixar ser assaltado por esse sentimento” de reviver o passado e o tempo da sua juventude.

“Para dizer a verdade acho que precisava disso, desse regresso, precisava de me sentir, como se a ideia de que nascemos num só momento tivesse que ser contrariada e eu precisasse de continuar a nascer e aquele é o melhor lugar”, confidenciou à agência Lusa, ao mesmo tempo em que admitiu que “há uma mudança na escrita” no próximo livro.

“Há uma mudança sim, porque também me interessa. Se eu sinto que estou a escrever a mesma coisa e da mesma maneira não me interessa mais escrever, eu quero batalhar contra mim mesmo, contra aquilo que me parece que já está estabelecido, uma zona de conforto que me apetece desafiar, não me apetece mais escrever se não me surpreender”, admitiu.

O novo livro que tem em mãos terá “uma escrita fragmentada a partir de papéis e de documentos e de registos escritos” que permitem ao autor “fazer uma visita ao que são até mais os esquecimentos do que as memórias, é uma espécie de invenção de esquecimentos a partir do que outros dizem que foi” esse passado,

“Principalmente os meus próprios irmãos que me contam histórias de família como se eu nunca estivesse lá, como se fosse uma ausência, uma distração e isso para mim é muito bom, porque estou a visitar o meu próprio tempo, a minha própria infância, como se a sentisse ao mesmo tempo familiar e estranha”, revelou.

Apesar do foco ser a sua infância, Mia Couto avisou que o livro não é sobre ele ou sobre a sua família, porque não deseja falar disso, mas interessa-lhe “muito falar desse tempo, porque é um tempo que é importante não esquecer e esses aparentes esquecimentos e esse registo de uma memória que nunca quer ser verdadeira, servem para relembrar um tempo que foi um tempo que tem ensinamentos, que não se podem esquecer”.

Mia Couto falava à agência Lusa, depois de ter participado numa das conversas literárias, programada pelo Festival Tinto no Branco, que decorreu em Viseu, de sexta-feira até hoje, e que contou com mais de 30 convidados, e onde partilhou o palco com o seu primo Tito Couto com quem falou de si, da família e da escrita.

Um momento que “correu bem, foi caloroso”, mas que Mia Couto confessou que, esta dimensão, com centenas de pessoas e a falar em cima de um palco, “passa a ser mais uma coisa facilmente convertida num espetáculo” do que uma conversa sobre escrita.

“Talvez o lugar do escritor e da escrita seja numa coisa mais pequena, mais familiar, numa sala onde se possa olhar as pessoas nos olhos e conversar como se conversa na vida real”, admitiu o escritor que reconheceu que não é uma opinião com base nas suas idiossincrasias, mas porque entende que “a escrita é uma coisa mais familiar, mais próxima, mais íntima”.

 

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